Especial: A volta da miséria

O romancista Charles Dickens (1812-1870), um dos mais populares da era vitoriana, deu uma enorme contribuição ao combate à miséria ao simplesmente retratar, com argúcia e empatia, a situação dos pobres na Inglaterra de seu tempo. Em seus livros, Dickens mostra a crueldade da pobreza num país que ainda levaria quase um século para lançar as bases do Estado de bem-estar social.

Nesta edição, VEJA oferece sua modesta contribuição para enfrentar o flagelo da miséria ao abordar o assunto. Depois de uma década promissora, entre 2004 e 2014, quando 30 milhões de brasileiros deixaram a miséria, em 2015 a tendência começou a se inverter. As estatísticas mais recentes mostram que, no Brasil de hoje, há mais de 28 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, ou seja, gente que vive com menos de 3 reais por dia. Um estudo do Banco Mundial estima que, entre 2015 e 2017, o número de pobres terá crescido 4,7 milhões e o de extremamente pobres aumentará em 3 milhões.

Para descrever essa realidade dramática, VEJA mobilizou seus repórteres e fotógrafos nas regiões centrais e na periferia de seis capitais — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Recife. “O número de moradores de rua vem crescendo em uma velocidade assustadora”, constata Kaká Ferreira, um dos fundadores da Anjos da Noite, organização de voluntários que distribui comida aos pobres em São Paulo. “Vemos famílias inteiras na rua porque não têm mais emprego para pagar o aluguel.” A cada noite de sábado, a Anjos da Noite entrega cerca de 800 marmitas aos moradores de rua.

Em 2015, um estudo do Ipea estimou em mais de 100 000 o número de pessoas sem teto no país todo. Com o agravamento da recessão, esse contingente cresceu. No Rio de Janeiro, houve um aumento de 150% nos últimos três anos. Depois de quatro anos de quedas sucessivas, a área ocupada pelas favelas cariocas voltou a crescer em 2012. Levantamento do Instituto Pereira Passos, obtido com exclusividade por VEJA, expõe a situação precária de 2 000 famílias em situação de vulnerabilidade no Rio: 95% dos entrevistados dizem não saber se aguentam até o fim do mês com comida na geladeira, 30% não possuem CPF, 25% têm filhos fora da escola e 20% vivem sem chuveiro nem vaso sanitário.

Uma evidência emblemática da marcha a ré social é a volta da campanha Natal sem Fome, fundada em 1993 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, morto em 1997. A ação havia sido encerrada em 2007, graças aos avanços na economia e nas políticas assistenciais. Foi retomada agora pelo filho de Betinho, Daniel de Souza, que teme que a situação ainda piore bastante antes de começar a melhorar.

Fonte: Porta da Revista Veja

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